Sexta-feira, Julho 04, 2008


Olhos nos olhos.
É como resolvo as questões.
Sem artifícios, escritas airosas, palavras ocas no branco do papel.
Olhos nos olhos, expressão de mãos que sempre me acompanham o discurso.
Olhos nos olhos, pausa necessária para ouvir, pausa provocada para falar. Não creio que exista outra maneira. Quer seja devedora ou credora. Quer seja responsável ou vítima.
Olhos nos olhos para que possibilite lerem-mos, eles que tanto dizem, para que possa ler, na expressão que me espera, o impacto do que digo.
Olhos nos olhos, com a lealdade que me merecem todos os que comigo convivem.

Com a honestidade e frontalidade que me caracterizam.
Sem cobardias.

(...)
.. faço uma pausa no texto apreciando as maravilhas que a princesa conseguiu no restauro do meu diário. Fita-cola por todo o lado, folhas cuidadosamente presas umas às outras, e um adesivo na testa, numa ferida mais feia que a aventura tinha provocado. Sorri-lhe, ao mesmo tempo que recordei as palavras dela ao entregar-mo assim: está curado Mummy, podes continuar. Ele devolve-me o sorriso, e profere: estou um pouco cansado sabes? .. hum, cansado de? Pergunto-lhe. De te ver assim, com pena de ti mesma. Com pena.
Cruzo os braços e fito-o. Explicas-te?
És uma mulher forte tu. Das mais fortes que conheço de todas as que me manuseiam. Forte e decidida. Sabes o que queres na vida, mas acima de tudo e mais importante que isso, sabes o que não queres que a vida te proporcione. Até há bem pouco tempo (sim, um ano é pouco tempo, não inventes) evitavas este tipo de obstáculo adivinhando intenções, fazendo o filme um pouco mais à frente que o rodar da fita permitia, declinando graciosa a tentação que sabias, sabias tão bem, que mais tarde te roubaria a paz. A calma. A simplicidade com que investias e como vivias. Agora pareces presa no lodo de palavras amargas, castigadoras de ti, das tuas decisões, culpando-te até ao limite. O Brilho, onde está o teu brilho?

Ah .. e não dormes também, nem comes, bem sei que te acompanho os movimentos na cozinha e as desculpas airosas que dás à princesa para justificar o pouco apetite à hora da refeição. Sinto-te à noite a pensar. Muito pensas tu. Quase consigo ouvir-te.

Inclino-me sobre a mesa, descruzando os braços. Não o interrompi. Fechei-o.
E fiquei a pensar durante algum tempo que não é só ele que está cansado deste meu eu.

Eu também estou.

6 comments:

fugidia disse...

Mas é preciso um tempo para tudo, até para sentirmos pena de nós próprios... até nos cansarmos :-)

(Lembrei-me do poema, de Àlvaro de Campos,
«Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo…
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.»

Pois serve! :-D
Beijinhos.

Once disse...

de facto Querida Fugidia .. o meu, aquele que me concedi, está a terminar .. felizmente.
Quero o meu outro Eu de volta, e está na minha mão ir buscá-lo.
(ao contrário dom Álvaro de Campos, que muito aprecio, eu sei bem do que estou cansada) :)
Beijinho e bom fim de semana

O Réprobo disse...

Querida Once,
nada de egoísmo, mesmo que no sofrimento!
Pode estar cansada do Seu eu, mas há os que A estimam, que estão ávidos dele. Logo, prodigalize-Lhe todos os cuidados, porque seria amarga desilusão para eles verem-no maltraradinho!
O diário é como as mães, temn sempre razão.
Beijinho

Once disse...

e tem mesmo caro Paulo .. este "meu" diário é como que uma vontade com vontade própria.
Quanto ao eu, este que recentemente tomou conta de todos os outros, vai desaparecer, quero acreditar nisso Eu.
:)

Luísa disse...

Minha querida Once, como diz o Réprobo, nós não estamos nada cansados do seu Eu. É curioso o que refere sobre a comunicação «olhos nos olhos». Esta nossa forma de comunicação «epistolar» tem a dificuldade que é transmitir instantaneamente, como só a expressão facial faz, estados de espírito e intenções. Mas à medida que a vou lendo, já vou pressentindo algumas coisas. Não sou eu que sou adivinha, mas a sua escrita que tem essa força. :-)

Once disse...

Querida Luísa qe a força que gentilmente reconhece à minha escrita me possibilite eliminar este "euzinho" chato que se instalou no último mês por aqui sem licença ou autorização ..
Obrigada Minha Amiga *