Terça-feira, Julho 01, 2008


Fechou-se em mim uma janela.
Dizem que Deus quando fecha uma porta abre uma janela, mas neste caso fechámos aqui portas e janelas, entaipámos o sentimento em barras de ferro e de madeira marteladas até à exaustão, demos sete voltas à chave de casa, corremos os estores e atestámos o frigorifico.

Ficámos assim na penumbra de uma assoalhada poeirenta, vendo rodopiar as partículas de pó no ar frio que entra por uma frincha esquecida, tentando ouvir os sons que de longe nos traz a vida. Enquanto apodrece a comida que julgámos apetecida e secam as plantas no parapeito da janela.
Fechámos janelas. Trancámos a porta. Resta retirar o autocolante que diz “publicidade não, obrigada!” da caixa do correio para voltar a certeza de ter de ler. De ter quem escreva. Mesmo no anonimato desinteressante de quem oferece o que não preciso.

Fechámos as janelas que davam para as grandes árvores frondosas e verdes de sombra calma e aliciante. Árvores que plantei um dia certa da colheita. Tão certa que colheria.

A sementeira danificada por outras vontades jaz a meus pés, pequenas sementes indefesas sem ar e sem água. Secas.
Fechámo-nos. Mas de nada adiantou à nossa dor e ao nosso desconforto. O mundo continua lá fora, imparável, imbatível, e quase ninguém sente o sofrimento que por aqui se vive. A desilusão sofrida. A falta de vontade.
Ou seremos nós que afastamos quem timidamente se aproxima para dizer “sinto a tua falta”?

9 comments:

fugidia disse...

Sim... ao último parágrafo...

Beijinho :-)

Nocas Verde disse...

Ai!
Soubesse eu, poor poor me, colocar um "audio" nesta coisa e áqui teria um meu... gritando descaradamente de alegria!!!

Minha linda amiga, minha saudosa leitura...

Não acredito (e tu o sabes, não?) que Deus feche portas e abra janelas.

Tudo o que é bom vem de Deus...
Tudo o que de Deus vem é bom...

Mas também é verdade que não é só Deus que nos dá coisas e que nem todas as coisas vêm de Deus!

Quem te disser que sente a tua falta compreenderá os entretantos, as indisposições, as invontades... e apenas, just a litle bit, provocará o regresso, pacientemente aguardando o que se sabe certo... sooner or later.

Welcome back, mate!

Luis disse...

Ai, ai... Não feches demais!
Essa casa tem belas janelas, algumas viradas para outros lados que não os da intempérie. Essas, precisarão de estar abertas para que a luz, o aroma, o ar continue a entrar e limpar eventuais resquícios de dias menos bons...

Cristina Ribeiro disse...

Também tenho aprendido que quando a vida nos fecha uma porta, Deus nos abre essa janela, tendo muitas vezes que escrever certo por linhas tortas para a escancarar...

Once disse...

Fugidia .. talvez. Que nunca essa sensação seja motivo para que nos afastemos ..
Beijinho para si também


Querida Nocas .. a tua amizade tão especial é um porto seguro por estes dias *
Obrigada


Terá Caro Luís? Neste preciso momento não estou certa de nada, muito menos disso. Agradeço-te esse voto de confiança *


Escrever certo por linhas tortas .. e que tortura de linhas estas Querida Cristina .. Vou acreditar nisso sabia ? :)
Um beijo

Luísa disse...

Minha querida Once, há situações muito difíceis, em que a única janela que vejo aberta traz uma luz cinzenta, que não anuncia bonança, mas apenas me diz que me hei-de habituar àquele sofrimento e dessensibilizar-me. Triste consolo. Mas há pequenos prazeres que me vão apoiando nesse mais ou menos longo trajecto. Espero que à Once também. E que o menor não seja escrever estas belíssimas e tão expressivas linhas, que nos dá a ler. :-)

ana v. disse...

Não tenho palavras, Once. A não ser, talvez, dizer-lhe que já estive numa casa fechada a sete chaves e que isso não me trouxe nada de bom. As jenelas não se abrem quando queremos, eu sei. Mas hão-de abrir-se um dia.

O Réprobo disse...

Querida Once,
Sei que merece melhor, mas vou ser brutal. As portas fechadas nada podem contra os afectos portadores de gazuas, até porque, estou certo, não foi contra eles que visaram tornar-se trincheira.
Aqui estamos nós, os Seus admiradores.
Corações ao alto! Sempre.
Beijinho

Once disse...

Querida Luísa e que bem me sabe escrever estas linhas sofridas, espelho meu, espelho meu .. se há coisa que nunca consegui dissociar foi o meu espirito das minhas letras .. admiro quem o consegue. São pessoas mais protegidas, certamente.
É dificil sim Luisa .. demasiado para mim, suponho.
Bom contar com esse seu lado racional e tão sereno*
Beijinho


Um dia Querida Ana .. quem sabe um dia .. Beijinho

Amigo Paulo "brutal"? (confesso o susto ao ler-lhe a palavra para terminar num meio-sorriso pela sua prova de Amizade) Coração ao Alto sim .. conseguirei.