sexta-feira, julho 18, 2008

Decidi que não vou odiar.
Não vou manifestar a desconfiança que mergulha na água cálida do meu acreditar. Não vou mudar.
Deixar de ser quem sou, deixar de gostar de mim. Deixar que se vá o meu eu arrastado pelas lágrimas que ainda choro mas que não regam as sementes que jazem a meus pés. Sementes que semeei. Colheita que se perdeu. Nada a fazer. Malditos corvos de quem não achou necessário colocar espantalho.

Não vou dar ouvidos às mensagens desavisadas que me chegam. Mensagens que provêm de pessoas inesperadas. Mensagens inopinadas e despropositadas. Outras, piores, revestidas de um carácter do qual escorrem laivos da mentira. E eu lido mal com a mentira. Venha ela de onde vier, esconda o propósito mais honrado ou o mais vil.
Mentira é mentira. Não me interessa a sua hipotética justificação.

Não vou mais insistir na procura de resposta, a apologia, em coração que não sente como o meu.
Nem obrigar os olhos a olharem-me ao mesmo tempo que a boca fala. Não vou, de novo, implorar, pedir, rogar. Não vou mais mirar o pedaço de papel que tenho em meu poder, assinado a trouxe mouxe, como tudo o que nele vem escrito. Felizes os que acreditam que a letra manuscrita ou impressa tem a força de um olhar. De um sorriso, ou de uma lágrima.
Vou arquivar as conversas na caixa do esquecimento, os beijos e planos na caixa do nunca deveria ter existido. Mas calmamente. Com jeito. Só assim sei se manterão lá dentro por tempo suficiente para que os esqueça.
Vou fechar ambas as caixas, lacradas e seladas, na cómoda que um dia escolheria. Um ano inteiro, arrumado, junto daquela peça feita em cacos que não consigo reconstruir mas que também não tenho, ainda, vontade de deitar fora. Junto com bolas de naftalina.
Decidi que não vou odiar.
Porque tal como o Amor o Ódio é um sentimento que se tem por quem merece.
Por quem nos merece.
Tudo o mais é farinha em saco roto que serviu para alguém amassar uma existência sem nunca ter tido a mínima intenção de a viver.


E fica por aqui o meu Back from the Dust.
Dust no qual me enterrei num conforto quente e poeirento. No qual me isolei. Num self-pity desastroso que achei iria durar mais tempo. Esquecendo-me que me conheço bem. Esquecendo-me dos princípios que me pautam a existência. Esquecendo-me da honestidade com que vivo. Nunca poderia durar muito tempo, repreendo-me.

Das lições que já aprendi na vida que já vivi sei que estamos sempre preparadas e temos, por norma, uma força desconhecida para irmos um pouco mais além. Nem que seja meia dúzia de metros. Não foi desta que foi diferente, mesmo tendo sido a primeira vez em que me vi obrigada a lidar com algo que desconhecia. Directamente.

E fica por aqui o Dust por uma razão muito simples.
Serviu uma fase obscura da minha vida, tem dentro sentimentos menos bons, sentires ainda piores, lágrimas e raivas sem sentido. Hoje, sem sentido. Mesmo esforçando-me por continuar a escrever normalmente, ao reler a dúzia e meia de posts publicados sei que não o consegui. Estão todos impregnados de uma amargura que me é estranha. De um eu que não sou eu. De uma tristeza pela qual não pauto a minha vida. De um “querer voltar atrás” que definitivamente não pactua a minha maneira de viver. De estar.

As próximas duas semanas, últimas antes das merecidas férias, vão ser duras por aqui. Como todos os anos. Depois, o período de acalmia, ou com a casa cheia de outros cansaços, vai revigorar esta vossa diarista. Este ano, num autêntico golpe de sorte, e à última da hora, a oportunidade de irmos todos juntos para fora. A Aldeia da Fonte espera crescidos e crianças para uns justos dias de dolce fare niente .. ou tropo fare ;)
O Once in a While, meu querido e restaurado Diário, para seu júbilo, será um twice, three times a .. , a partir de Setembro. Deixei-"o" escolher o Nome .. ;) podia ter saído pior.

O Dust fica aqui. Orgulhosamente agarrado ao meu perfil. Não tenho do que me envergonhar e tendo, nunca seria boa opção fazer de conta que.
Fica à laia de intervalo. Intervalo que sei tive de viver, para poder agora seguir em frente. Na vida não vale saltar etapas como se de obstáculos em corrida de fundo se tratassem. E acima de tudo, não vale fazer de conta que não seja ao deitar, nas histórias que ainda se contam para as crianças adormecerem.

É tempo de seguir em frente sem lamentações. Sem tristezas. Sem amarguras. Serena e calmamente, mais crescida, mais prudente mas sem perder esperanças porque o futuro é já amanhã e nada do que eu faça vai alterar aquela linha desenhada.

E depois, principal dos principais ;) tenho nesta vida um exemplo a dar. A ensinar. A passar.
A alguém que, sangue do meu sangue, vai fazendo o seu próprio juízo do que a rodeia. Tirando as suas conclusões. Moldando a sua personalidade. No que de mim depende, o exemplo regra-se pela franqueza, honestidade e consideração com que vivo. Por quem me rodeia. Acima de tudo, por mim mesma.

Regressaremos a nós. À nossa vida. Como dantes.

Luísa, Cristina, Fugidia, Júlia, Paulo, Helder e Luís .. a Vossa presença foi valiosa. Não acredito que saibam o quanto. Pelo que Vos li nas linhas e entrelinhas. Pelas mensagens dentro das mensagens, pelos sorrisos, pelo estar. E saber estar.
Agradeço-Vos por isso e espero ver-Vos em breve.

Um beijo *


(PS_ Queridas M e Nocas .. podem sim respirar de alívio. Eu já respiro)

quinta-feira, julho 17, 2008


Bon Voyage Amigo Réprobo :)
.. que chegue ao seu destino e aí concretize o que se propõe *

É esta a tua irmã? Pergunta-lhe a amiga ligeiramente ciumenta de tanto que ouviu falar, entusiasticamente, da menina bonita que está na fotografia. Recuo no tempo e lembro-me concretamente do local onde foi tirada. As “manas” vestidas de igual, amplos sorrisos nas carinhas larocas, abraçadas, a posar para a máquina que sempre me acompanha.
Atento na resposta da princesa que sei me vai dar mais informação que todas as conversas que já tivemos sobre este assunto. Simplesmente porque não sabe que a escuto. Pega na fotografia e sentada na cama, com a amiga ao lado, explica-lhe que o “irmãs” era uma brincadeira. Só tem um irmão. Filho único de um casamento anterior do Pai. Irmão que adora, que a adora. Sabes Joana, a minha mãe ensinou-me há muito tempo que os irmãos são os verdadeiros amigos de coração. E que esses, nunca nos abandonam. Hoje sei que isso é verdade.
Mas eu também sou tua amiga de coração
, responde-lhe a garota, fazendo-me sorrir ainda que sentindo-me culpada por “escutar” algo no qual não participo. Eu sei, e também sou tua, mas ficamos um bocadinho mais abaixo, no coração, pode ser? Riem-se as duas. A fotografia é colocada dentro de uma gaveta, perdendo o lugar de destaque em cima da secretária. Ao lado da do irmão.

A voz da princesa interrompe-me o fio de pensamentos num “mummy, podemos vestir os vestidos de Carnaval antes do banho?” .. que jeito isso deve dar meninas. Cheias de sal, areia e suor! respondo-lhe já na cozinha, dando uma gargalhada. As duas na banheira, dentro de 5 .. 4 .. 3 .. riem-se e correm para a casa de banho.
Oiço-as na brincadeira. Amigas. De coração. Mesmo que nele ocupem um lugar um pouco mais abaixo de quem tem de estar a ocupar o espaço todo.
Que simples esta equação.

Que tanto eu aprendo com o que um dia ensinei.

quarta-feira, julho 16, 2008


Recta final antes do aniversário da princesa.
Convites para cá e para lá. Altura complicada, como sempre, amigos de férias, família essa inabalável no Parabéns a Você, estejam onde estiverem.
Este ano, quem sabe se para apaziguar a falta que ainda lhe faz quem de repente desapareceu da sua vida, conta com o primo, o nosso british boy, em viagem antecipada de propósito para a ocasião.

Escolhemos o bolo, as decorações e o local. Mais o lanche, as bebidas, listas de nomes que risca e confirma, assim estejam ou não por Lisboa.

Ontem, após o passeio de bicicleta que agora tem de competir com o par de patins em linha que o Pai lhe enviou, senta-se ao meu lado, listas na mão, caneta em punho, e pergunta-me de chofre: Mummy, de que morreu o Avô? – sou obrigada a engolir em seco, como sempre que de chofre me aborda com as questões mais surpreendentes e esclareço-a, de novo. Tenho tanta pena de não o ter conhecido. Quer dizer, eu já era nascida mas era tão pequena. Assim foi de facto. Perdeu o avô materno com pouco mais de seis meses de vida. Impossível uma lembrança que não a feita do que ouve contar, do que vê nas fotografias, das idas à terra do Avô. Mas ele a mim conhece-me bem, mãe. Ainda me lembro de dizer que os avós eram duas estrelas no céu. E continuo a acreditar nisso. Mesmo que só o diga aqui, contigo. E sabes mãe? Daquelas pessoas que não estão nesta lista este ano, eu gostava mesmo, mesmo era de poder colocar o nome deles.

E eu gostava, gostava mesmo mesmo, de poder continuar a contar com eles.
Por outras palavras, no seu jeito racional e meio infantil, a minha filha acabou por me dizer que só nos faz falta quem de facto desaparece, por morte, da nossa vida. Ainda que presente em forma de estrela luminosa em céu calmo e negro.
Tudo o resto é acessório. E o sofrimento quase inútil.

Thank you princess *

terça-feira, julho 15, 2008


Entrei na loja, mais pelo fresco que se adivinhava no calor barrento de 38º cá fora, do que por querer adquirir o que quer que fosse. O funcionário, levantou-se de imediato para me perguntar se precisava de ajuda. Sorrio da solicitude, e pergunto-lhe por um creme, que costumava comprar. Não me perguntem porque perguntei. Deixei de o usar numa altura específica e dorida, recente, da minha vida. Quase consigo precisar o dia em que deitei fora o boião ainda a meio. Porque sim.
De semblante triste respondem-me aqueles olhos azuis que não. Foi descontinuado. Desapareceu.
Apetece-me dar uma gargalhada pela coincidência. De facto. Ele há coisas..
Faz questão, contudo, em mostrar-me todas as novas linhas da loja. Verdadeiramente cativantes em termos de embalagem, cheiro e aparência.
Fico a saber a coisa fantástica que há quem perfume a casa de acordo com o perfume e creme que usa no corpo. Um dois em um engraçado, de significado dúbio. Cheiros do oriente, cheiro a flores e frutos, cheiro doce e intenso a canela e baunilha, cheiro verde, aquele meio rosado, o outro que me agrada ao simples sabão azul e branco.
Cheiros, cremes, pomadas, perfumes, velas e ambientadores.
Tudo novo. Para substituir os que vão desaparecendo. Volto a sorrir da circunstância.

Saio fresca, esclarecida, mas completamente enjoada! ;)

Os finais de dia têm, ultimamente, sido preenchidos com .. imaginem: aulas de bicicleta.
A vistosa máquina azul clara e laranja, capacete a condizer, espera ansiosamente que a princesa chegue a casa, depois de uma manhã de praia e uma tarde em que as actividades do simpático Atl de Verão são diariamente variadas e preenchidas, ora com uma aula de equitação, uma visita cultural, jogos de basket, ida a ringues de patinagem, aulas de surf, piscina, e por aí fora, enquanto haja imaginação por parte dos monitores e adesão da criançada em férias merecidas.
A bicicleta foi prémio pela passagem de ano, com umas notas que espelham bem o grau de exigência a que a princesa se submete, mesmo depois de ter tido um início de ano difícil, em escola desconhecida e sem amigos da primária por perto que minimizassem o medo do que é estranho. Notas das quais me orgulho, não que lhe exija só as melhores, mas sempre a ensinei a dar o seu melhor e a exigir superar-se o que vai dar, redondamente, ao mesmo, eu sei.
Nunca tendo tido tal adereço de diversão, uma aula há muito tempo atrás quando a vida era, com outros, partilhada, não chegou para o à vontade que se pretende em duas rodas, curvas e contra curvas, o saber parar que não de supetão, o equilíbrio necessário ao gozo de uma viagem de cabelos ao vento.
As traseiras de onde vivemos prestam-se. Um pátio largo e comprido, sem obstáculos de “ai .. ai .. ai”, e aí se lança a princesa do reino numa aprendizagem que eu, não sei ainda bem, como tem àquela hora energia e vontade para tal. Ao fim de dois dias, passam a conhecidos aqueles com quem nos cruzamos neste pedaço de dia. Um casal de idosos, ela de andarilho a demonstrar alguma incapacidade física, ele atento ao local onde o coloca, braço por cima dos ombros, passo propositadamente cadenciado, companheiro. O garoto do skate que prega razias à bicicleta da inexperiente, numa de “meter conversa” a quem aprecio a subtileza (risos). A senhora que sistematicamente estende roupa àquela hora, sorrindo do primeiro andar perante os meus “costas direitas” .. “olhar em frente”. A princesa contente pelas conquistas, já curva, já trava sem guinchos (os dela e os dos travões), já sobe o passeio mais baixo sem cair e sem se desequilibrar.
Logo que preparada, partiremos para outras viagens. Tudo requer algum trabalho. Até a diversão :) Acima de tudo, a diversão.

segunda-feira, julho 14, 2008

"simplicity is about subtracting the obvious and adding the meaningful"
John Maeda

Aquela estatueta é de ouro mamã? Pergunta a princesa que acompanha na TV o anúncio da reportagem sobre crianças escravizadas. No écran vaidoso, a triste noticia transmitida, uma rapariga bonita, que presumo ser a jornalista, recebe um prémio da mão de um senhor francês.

A princesa quer saber se é de ouro.
Tenho a tábua de passar na sala, um monte de roupa com cara de poucos amigos, separado em género e tamanho, que espera paciente que o ferro aqueça. Dou uma olhadela ao écran e respondo-lhe que provavelmente será de ouro sim, porque perguntas?
Se os pais vendem os filhos por trinta euros Mamã, talvez aquela estatueta convertida em euros possa evitar que os sacrifiquem assim
, responde-me.
Pouso o ferro de engomar, para desespero dos montes de roupa prontos a partir para as gavetas, e abraço-a.
Era simples que as soluções fossem sempre tão simples não era?
Era.

Óbidos é uma vila linda.
Linda, bem-disposta, acolhedora, afável e simpática.
Presta-se a todo o tipo de passeios e iniciativas. As gentes são de sorriso fácil, carinho nos cabelos dos mais pequenos, recebem-nos como se o objectivo principal fosse “Voltem!” .. Óbidos do Festival de Chocolate, Óbidos do Mercado Medieval, Óbidos da Aldeia do Pai Natal .. e a outra Óbidos .. a Óbidos dos passeios de Inverno, da subida ao Castelo, do petisco na tasca da esquina, da fotografia daquela janela florida, ou das ameias ao longe, protegidas e protectoras.
Óbidos é um dos nossos destinos preferidos.
E, mais uma vez, superou as nossas expectativas.


A feira (franca como diz a princesa com a matéria favorita ainda presente) numa reprodução fiel de tempos há muitos idos. Petiscos? Se entrar no espírito, come à mão grandes lascas de carne acabadas de cortar do animal que roda lenta e apetitosamente no espeto. Caso contrário, siga para Peniche e sente-se num fancy restaurant ;) .. muita gente trajada a rigor, as camponesas de grandes cabelos cobertos de flores, cruzados trajados em montadas espartilhadas pelas cotas de malha que brilham num sol quente e abrasador.
Saltimbancos em tropelias, reproduções fieis dos “circos” que entravam portas dentro, as aberrações humanas, a música, as bailarinas do ventre.
No mercado tudo se vende. Tal como na altura, tudo se vendia. A galinha cacareja solta no chão de terra, escondendo-se por entre as grandes meadas de tecidos brilhantes. Os espelhos e outros adereços reflectem as gentes que passam, o pó que levantam, o brilho do Sol e dos sorrisos em caras de espanto. As peles tratadas em chinelas e bolsas, exalam um cheiro característico. O cheiro do campo, no campo. Alfazema em molhos, oferecida por garotos que supus escuteiros, vestidos à época representando as várias classes sociais.
Burros carregados de legumes de toda a espécie e grandes vasilhas de água que vai pingando, acalmando o calor, percorrem o recinto de cima a baixo conduzidos por personagens que lembram Robin. A princesa brilha, pequena malha vermelha e luzidia nos cabelos, saltitando de uma tenda para outra, explicando-me cheia de detalhes de onde vinham aquelas especiarias, e que moeda se usava na altura para troca.
O orgulhoso torreão com a marca do castelo de Óbidos, rodava-lhe nos dedos, e o sorriso iluminava-lhe o rosto. Pequena princesa medieval, em sonhos de tempos idos.

Voltaremos :)

sexta-feira, julho 11, 2008


e agora algo completamente diferente (já tardava eu sei ..)

Inaugurada ontem, Mãe e Filha trajadas a rigor, vão divertir-se *
Depois conto!

Tenham um fim-de-semana .. Medieval ;)

(reflectindo .. )

Quando um casal se separa há sempre quem tome partido.
Por vezes esse partido vem, legitimamente, dos antigos amigos de cada um. Os amigos dela torcem por ela. Os amigos dele solidarizam-se. Por vezes deixa mesmo de haver convívio entre todos. Ou pelo menos, entre alguns. Por vezes não é por mal. Os amigos ficam como que dependurados numa linha ténue para perceberem como vai terminar o confronto e se podem, devem, será sensato ou oportuno, será bem visto ou aceite, manterem-se como desejam: amigos dos dois.
Por vezes há um que sai rapidamente do rebanho do politicamente correcto, sem passar pela casa do “luto”, e continua a procurar a outra parte, mesmo quando todos os do “bando” rumam em direcção oposta. Por uma questão de consciência. Se se gostava da pessoa, se se era amigo, se se prezava a companhia, não é porque algo aconteceu que em nada nos diz respeito, à excepção da normal lamentação por um lar desfeito, que deixamos, de repente, de conviver. Isto partindo do princípio, claro, que não existe qualquer tipo de violência, deslealdade gritante, e esquemas daqueles mesquinhos que não servem mais que para humilhar alguém com quem tanto se partilhou e que, independentemente do lastimável desfecho numa ausência de sentimento, merece todo o respeito.
Mais, merece uma companhia e uma preocupação pelo seu bem estar. Pela sua estabilidade. E, uma atenção que, em momentos de fragilidade assume, como bem sabemos, proporções gigantescas.
Depois há as outras. Aquelas que enfatizando algo que não existe, como por exemplo uma amizade exagerada, ou um sentido de respeito agigantado, fruto normalmente de um convívio recente ou esparso no tempo, opinam e criticam como se ao alto estivessem de situações idênticas, acabando por tomar uma posição de afastamento deliberado de uma das partes. Posição não completamente transparente na intenção, que, por incrível que pareça e contra tudo o que provavelmente pretendiam, acaba por parecer completamente ridícula e infundada tanto aos olhos dela, como aos olhos dele. Motivo de graça, até. De alguma zombaria. Motivo de uma união momentânea e fugaz num seio que se supunha .. desunido.
A intenção deste tipo de gente sempre foi para mim um verdadeiro mistério. Aproveitamento de uma fase mais carente? Avanço em mote e intenção próprios para algum ressarcimento? Ou simplesmente um entretém de tempo, de quem tem tempo a mais na vida sem nada para fazer?
Acabo sempre por me espantar quando deparo com a exposição pública destas atitudes.
E lamentar. Que a intenção, a verdadeira intenção, do interessado desinteresse não transpareça nem quando à noite, sozinhas com o travesseiro, pensem em consciência e coerência que diabo as levou a tomar tal atitude.
É triste quando o “grilo falante” que nos acompanha na vida, se demite.

quinta-feira, julho 10, 2008

Passa ao longe o NileDutch carregado de contentores. Orgulhoso da pintura recente, a cor brilha no brilho do rio, que brilha do brilho do Sol. Rio que o empurra ao destino. Outro, mais pequeno, de passageiros faz a enésima travessia desde que aqui estou, sentada. A esplanada agradável, o rio como pano de fundo, Cristo de braços abertos a dizer-me “tem calma”.
A música faz-me sorrir. Há alturas na vida em que tudo parece sentir que tem, de propósito, que vir de encontro ao nosso sentir. You didn’t know how to love me .. murmura uma voz quente, provavelmente negra, matizada de um blues indefinido com acordes de guitarra.
Solícito o empregado pergunta-me com um ar levemente pesaroso “que vai ser menina?”, acho que as mulheres sozinhas em esplanadas merecem, provavelmente, aquele ar de .. pena.
Peço um folhado de queijo de cabra. Gosto de folhados. Aprecio queijos no geral.
Virgínia Wolf diz-me, no livro que me acompanha: “automóveis, camiões e autocarros ou carrinhos de mão deslizam por nós como peças de um puzzle, puzzle que nunca chega a completar-se por muito que o observemos”. À minha frente uma mesa com um garoto acompanhado pelo pai. Fala ao telefone e pergunta quanto tempo mais mamã? A resposta ensombra-lhe o olhar, sentimento que hábil afasta rapidamente com uma miradela ao Pai na certeza que não o percebeu.
Ao meu lado, a rapariga belisca a perna do companheiro. Por detrás dos óculos escuros vi que me fitava. Tempo demais, achou ela. A senhora que não cabe no vestido às flores que não entendo porque adquiriu, come, à mão, um hambúrguer que escorre gordura enquanto mergulha num monte de maionese as batatas fritas que o acompanham. No estado sensitivo em que estou, não tarda mudo de mesa, penso.
De novo o empregado zeloso, o folhado à minha frente, levemente alourado e apetitoso. Tento concentrar-me na Virgínia que o merece. Ela e a descrição fabulosa que faz da cidade de Londres em pleno início de século vinte. Não consigo.

A música troca e agora canta Rod Stewart .. a balada não pode ser mais sentimental na sua característica voz rouca e marejam-se-me os olhos. Os óculos protectores cumprem a sua missão, enquanto que o folhado, envergonhado, vai parar ao fundo da mala.
Passa novo porta contentores. O símbolo da empresa brilha ao sol, gentes afadigam-se porão fora.
Ao longe a estátua de Cristo continua de braços abertos.
Imóvel.
Serena.
Já lá estava antes, confio que se manterá assim, depois.

Foi uma conversa agradável. E elucidativa. Estávamos na Bênção das Pastas da filha de uma grande Amiga que vai, no país que estamos, certamente engrossar as filas do desemprego, mas que naquele dia, radiosa e orgulhosa, trajada a rigor, nos presenteou com uma cerimónia comovente na Basílica da Estrela, seguida de um repasto simpático e intimo no Clube de Tiro de Monsanto. Família toda presente, alguns dos amigos mais chegados, partilhámos o momento alto da sua vida de estudante, e formulámos todos votos de boa sorte para o grande passo que a espera em seguida: conseguir um emprego, na área do ensino ao nível do primeiro ciclo.
Há alguns tempos que não via este meu amigo, amigo comum. Pai de dois jovens, dezasseis e treze anos, há muito tempo que os não via a eles. Habitantes da cidade do Porto, não é pela distância mas unicamente pelo rumo de vidas que às vezes não nos permite o convívio com quem nos é querido.

Sentámo-nos a conversar sobre os filhos, obviamente. Sei-os aos dois bons estudantes, e até há uns tempos atrás brincávamos com o mais velho chamando-lhe “o menino dos 5”. Indaguei sobre percursos pretendidos, notas de final de ano, perspectivas de futuro. Aquele pai, cuja sabedoria aprecio, sabendo-a mais da experiência de vida do que do curso superior que seguiu e posteriores doutoramentos, enche um sorriso orgulhoso e brilham-lhe os olhos ao falar da prole. “Médico imagina, o mais velho quer Medicina” .. e continua: não estou certo que consiga. Tudo agora conta, todos os meios pontos são imprescindíveis. Há uma nota que destoa no conjunto. O Português. Dezoito valores. Rio-me eu. Vintes e dezanoves com fartura na pauta de um décimo primeiro ano concluído com sucesso. Aquela nota a destoar (um 18) preocupa o meu amigo. Minimizo a situação e levo imediatamente com uma lição de vida: se ele quisesse seguir-me os passos (arquitectura) não me preocupava. Podia dar-se ao luxo de escolher a universidade a ingressar. Mas medicina minha amiga tem a fasquia demasiado alta para ficarmos a “morrer na areia”.
Sou obrigada a concordar. E olhando o jovem que brinca com a criançada na relva do clube para irritação dos futuros atiradores aos pratos, não posso deixar de lhe referir que aquele garoto, metro e oitenta, melena despenteada e gargalhada fácil, que faz agora um avião com a minha princesa ao colo, não “morrerá certamente na areia” mesmo com “alguma deficiência” na aprendizagem da sua língua.
Sorri ele. Confio que não, refere, e sabes que mais? Já tinha saudades de conversar contigo. Como tens passado tu?a morrer na areia” apeteceu-me responder-lhe.
Mas fiquei-me pelo pensamento de um peixe sem água e sem ar, grotesco, mudando rapidamente de assunto.

quarta-feira, julho 09, 2008


De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente
Vinícius de Moraes



Faz hoje um mês que te foste
e eu ainda não sei o que fazer
com tudo o que, de repente,
"não mais que de repente,"
me devolveste.

terça-feira, julho 08, 2008


Grelho os bifes com sal e limão como gostamos lá no reino.
À parte umas rodelas de banana aloiram em outra frigideira. A princesa parte a papaia aos cubos como gosta, a pêra e a maçã enquanto depenica nas uvas brancas e doces. A cozinha está numa desarrumação que só visto porque a menina precisa de três pratos, não sei quantas facas, e alguns tabuleiros para se dedicar à culinária. A sua cabeça de cabelos lisos e sedosos ombreia-me. Olho-a, atenta ao que faz, uma faca maior que as suas mãos habilmente manejada enquanto dispõe os pedaços de fruta arrumados e por cores à beira do grande prato branco que nos serve para os petiscos.
Volto os bifes na frigideira. Exalam o cheiro típico de carne a grelhar. A princesa levanta o cortinado da cozinha e abre a grande janela. Mummy repara .. interpela-me .. as árvores estão lindas. Sorrio mirando-as, estão de facto, enormes, cheias de folhas, verde-escuro. Os prédios em frente, a uma distância considerável das nossas traseiras deixaram praticamente de estar visíveis. As folhas ondulam na brisa quente do final de dia, e um cheiro a erva molhada e tratada invade-nos a divisão.
Torno a virar os bifes. A princesa tagarela sobre a actividade do dia. Mini Basket. Consegue elevar-se bem, fruto de anos de ballet, e gostou de jogar. É giro mummy, mas prefiro a ginástica rítmica. Tem tudo a ver, penso, rindo, e aponto mentalmente passar no Sad para a inscrever para este ano.

Mais uma volta e os grossos bifes estão grelhados e a cheirar a limão e sal. A fruta arrumada no prato, colorida e apetitosa. A mesa posta pela princesa com os guardanapos em leque nos copos como aprendeu a fazer.
Devagar, devagarinho, voltamos a aprender a ser as duas “dartanhans” de sempre, como costumamos brincar..
Bom apetite princesa .. bom apetite mamã :)

segunda-feira, julho 07, 2008


Deitada na areia de barriga para cima observo as nuvens que passam calmas. Pequenos pedaços de algodão revoltos num céu azul e limpo, brilhante, que parece espelhar o azul profundo do mar, que calmo de onda mole e enrolada na areia, murmura ao longe.
As crianças entretêm-se a apanhar as pequenas conchas à beira mar, cada uma de balde na mão e ligeiramente curvadas sobre a areia. Oiço-as ao longe, um ouvido atento ao som familiar dos seus risinhos e conversas, outro dedicado a sentir o ambiente que me envolve. Um ar morno, uma brisa agradável que não chega a despentear cabelos, um cheiro a sal e areia.
Sentada na areia a princesa faz pequenos montes com as conchas acabadas de apanhar explicando pacientemente ao primo, caçula de dois anos de idade, quantos dias faltam para a chegada do primo do meio. Sorrio da explicação que lhe vai dando, enquanto de cóqueras e abanando a cabecita como se lhe entendesse todas as palavras, ele vai ouvindo. Vês? Pergunta-lhe tocando-lhe nos caracóis loiros que lhe emolduram os grandes olhos claros .. estão aqui vinte e nove conchas. Faltam vinte e nove dias! Conclui dando-lhe a mão porque o pequeno, que provavelmente acha vinte e nove dias uma eternidade, a puxa para o banho.
Vinte e nove dias e seremos de novo a família completa em férias passadas à beira mar, irmãos e sobrinhos num alegre convívio durante quinze dias inteirinhos. Aqueles quinze dias que nos acalmam as saudades até ao Natal, altura em que estaremos de novo juntos. Desejosa do dia do aeroporto, como dizia a princesa há uns anos atrás, dia em que acordamos cedíssimo não importa a que horas chegue o avião, e nas horas que intermedeiam o abraço que queremos dar e o horário de voo, a pergunta de cinco em cinco minutos é: mummy não estamos já atrasadas? ..
Deitada de barriga para cima na areia, inclino-me apoiada no cotovelo para observar as crianças, a princesa deitada à beira de água, não avançando porque o primo “é bebé” ele a puxá-la por um braço enquanto ri à gargalhada.
Felicidade?
Já referi não já?
Somos nós e os momentos a que nos dedicamos, que a fazemos.

sexta-feira, julho 04, 2008


Um dos melhores restaurantes de marisco que conheço é na Azenha do Mar, limite entre o Alentejo e o Algarve, muito próximo de Odeceixe onde passei férias toda a minha adolescência e onde levei recentemente a princesa para que saiba o que é tomar banho no Atlântico e subir às rochas na procura da lage mais lisa onde se pode escrever. O restaurante fica na zona de pesca, embutido na rocha escarpada, lota a metros de profundidade junto ao mar, e serve só o que por ali se pesca. Para os lanches de Verão aconselha-se a chegada pelas 16h00 e se quiser deliciar-se a jantar com um por de sol que emoldura qualquer sentimento, não se atrase em relação às 18h00 .. é que nessa altura tem qualquer coisa como uma lista de espera de 20 pessoas. Reservas? Não há como fazer. E segundo o dono, o simpático Sr. Manuel, não é preciso Menina, estamos sempre assim como vê. Cheios e com gente à espera.
O marisco fresquíssimo e a saber a mar, colocado na mesa acompanhado de grossas fatias de pão alentejano torrado e cheio de manteiga, apura o apetite ou, no nosso caso, enche a barriga precocemente, para a feijoada de marisco ou o arroz de lingueirão, a sapateira cheia e bem confeccionada ou a santola saltitona, em mãos pouco hábeis a manejar as ferramentas necessárias, para enrubescimento nosso e gargalhadas nas mesas vizinhas.
Azenha do Mar, povoação exclusiva de pescadores e clientes de todo o país que ali procuram uma qualidade e simpatia raras.
Lá em baixo, muitos metros abaixo, no pequeno porto protegido pelas grandes rochas que pontuam o Atlântico, quais gigantes protectores, a azáfama das gentes que nos proporcionaram um manjar de Deuses.

Experimentem .. e tenham um excelente fim de semana *

Olhos nos olhos.
É como resolvo as questões.
Sem artifícios, escritas airosas, palavras ocas no branco do papel.
Olhos nos olhos, expressão de mãos que sempre me acompanham o discurso.
Olhos nos olhos, pausa necessária para ouvir, pausa provocada para falar. Não creio que exista outra maneira. Quer seja devedora ou credora. Quer seja responsável ou vítima.
Olhos nos olhos para que possibilite lerem-mos, eles que tanto dizem, para que possa ler, na expressão que me espera, o impacto do que digo.
Olhos nos olhos, com a lealdade que me merecem todos os que comigo convivem.

Com a honestidade e frontalidade que me caracterizam.
Sem cobardias.

(...)
.. faço uma pausa no texto apreciando as maravilhas que a princesa conseguiu no restauro do meu diário. Fita-cola por todo o lado, folhas cuidadosamente presas umas às outras, e um adesivo na testa, numa ferida mais feia que a aventura tinha provocado. Sorri-lhe, ao mesmo tempo que recordei as palavras dela ao entregar-mo assim: está curado Mummy, podes continuar. Ele devolve-me o sorriso, e profere: estou um pouco cansado sabes? .. hum, cansado de? Pergunto-lhe. De te ver assim, com pena de ti mesma. Com pena.
Cruzo os braços e fito-o. Explicas-te?
És uma mulher forte tu. Das mais fortes que conheço de todas as que me manuseiam. Forte e decidida. Sabes o que queres na vida, mas acima de tudo e mais importante que isso, sabes o que não queres que a vida te proporcione. Até há bem pouco tempo (sim, um ano é pouco tempo, não inventes) evitavas este tipo de obstáculo adivinhando intenções, fazendo o filme um pouco mais à frente que o rodar da fita permitia, declinando graciosa a tentação que sabias, sabias tão bem, que mais tarde te roubaria a paz. A calma. A simplicidade com que investias e como vivias. Agora pareces presa no lodo de palavras amargas, castigadoras de ti, das tuas decisões, culpando-te até ao limite. O Brilho, onde está o teu brilho?

Ah .. e não dormes também, nem comes, bem sei que te acompanho os movimentos na cozinha e as desculpas airosas que dás à princesa para justificar o pouco apetite à hora da refeição. Sinto-te à noite a pensar. Muito pensas tu. Quase consigo ouvir-te.

Inclino-me sobre a mesa, descruzando os braços. Não o interrompi. Fechei-o.
E fiquei a pensar durante algum tempo que não é só ele que está cansado deste meu eu.

Eu também estou.

quinta-feira, julho 03, 2008


Perguntas.
Tantas perguntas.
A procura dos porquês pode tornar-se extenuante. Pior, pode acabar como começou, sem respostas satisfatórias e com uma acrescida dose de perguntas que surgem naturalmente a cada desculpa que se inventa. Uma dose peganhenta, quais batatas fritas em pacote de cartão cobertas de maionese.
O PORQUÊ em letras garrafais que a princesa me lançou naquele dia, ao mesmo tempo tão perto e tão longe, ao ver-me de lágrimas nos olhos e desalentada, foi uma pergunta desesperada, na procura de uma resposta que a sossegasse, como a sossegam todas as respostas que a mãe lhe tem dado ao longo da sua ainda breve mas cheia vida. Desta vez, desta fatídica vez, a mãe não tinha a resposta. E em todos os dias depois desse, a chegada a casa é pontuada por mais perguntas. O “Mummy estive hoje a pensar e” .. remata quase sempre numa das tais desculpas, esfarrapadas e piedosas, com as quais tentamos acalmar a ânsia de saber quando não há ninguém que nos responda. Pior, quando quem pode responder, ou será deve?, simplesmente se fecha num mutismo incompreensível, intolerável. Cruel.
Aprendeu uma lição a minha princesa.
Uma lição que sei terá consequências no seu futuro, na sua evolução como menina, na sua ascensão a mulher: O sentimento de “confiança” muito dificilmente passa por quem nos diz “confia”. E o que hoje é certo, feliz e partilhado, porque alguém nisso nos faz acreditar, pode, de repente, deixar de ser.
Assim. Sem mais explicações. Sem um adeus. Sem uma desculpa. Mesmo das esfarrapadas.
Uma lição desnecessária, na sua vida até aqui cheia de inabaláveis certezas, daquelas próprias de quem tem dez anos de idade e que ninguém deveria ser capaz de destruir. Que a mãe achou ninguém destruiria.
Aprendeu uma lição a mãe.
Igualmente desnecessária. Mas dessa falarei, talvez, daqui por largos tempos. Quando o nó na garganta deixar de me sufocar no simples acto de inspira .. expira.
Sobreviveremos.

quarta-feira, julho 02, 2008


No passado falei de nós. Nós coesos, nós lassos, nós em laço solto de fita bonita encaracolada para turista ver, nós que permanecem para sempre e outros para os quais a palavra sempre encerra tempo demais, paciência inútil.

Nós que damos na vida, com Filhos e com Pais, Amigos e Amantes e até os outros que nada nos sendo, algo significam.

Em tempos falei de nós. Mas hoje falo de cordas.
Cordas duras de pescador, feitas de sal e areia, cordas brancas e finas que seguram velas ao vento, cordas de cetim brilhantes e vaidosas do brilho que espalham, cordas de saltar, meninas de carrapito em alegres brincadeiras, cordas às quais nos agarramos, sobre as quais nos apoiamos. Cordas que são os Amigos que nos acompanham a existência e que se chegam num “estás bem?” quando algo lhes diz, que não o estamos.
Cordas.

Feitas de cuidado e carinho, amizade e preocupação, não interessa a distância a que as estendemos, nem há quanto tempo as não medimos.

São cordas que nos enlaçam e entrelaçam e nos garantem que sim, amanhã é sem dúvida outro dia.
Obrigada *

terça-feira, julho 01, 2008


Fechou-se em mim uma janela.
Dizem que Deus quando fecha uma porta abre uma janela, mas neste caso fechámos aqui portas e janelas, entaipámos o sentimento em barras de ferro e de madeira marteladas até à exaustão, demos sete voltas à chave de casa, corremos os estores e atestámos o frigorifico.

Ficámos assim na penumbra de uma assoalhada poeirenta, vendo rodopiar as partículas de pó no ar frio que entra por uma frincha esquecida, tentando ouvir os sons que de longe nos traz a vida. Enquanto apodrece a comida que julgámos apetecida e secam as plantas no parapeito da janela.
Fechámos janelas. Trancámos a porta. Resta retirar o autocolante que diz “publicidade não, obrigada!” da caixa do correio para voltar a certeza de ter de ler. De ter quem escreva. Mesmo no anonimato desinteressante de quem oferece o que não preciso.

Fechámos as janelas que davam para as grandes árvores frondosas e verdes de sombra calma e aliciante. Árvores que plantei um dia certa da colheita. Tão certa que colheria.

A sementeira danificada por outras vontades jaz a meus pés, pequenas sementes indefesas sem ar e sem água. Secas.
Fechámo-nos. Mas de nada adiantou à nossa dor e ao nosso desconforto. O mundo continua lá fora, imparável, imbatível, e quase ninguém sente o sofrimento que por aqui se vive. A desilusão sofrida. A falta de vontade.
Ou seremos nós que afastamos quem timidamente se aproxima para dizer “sinto a tua falta”?