segunda-feira, junho 30, 2008


Passei lá férias durante dezasseis anos. Seguidos. Primeiro Pais e irmão, anos mais tarde outro irmão, quase no fim, já menina crescida a entrar na adolescência, a irmã.

Todos os anos a chegada a Odeceixe, primeira vila Algarvia, era pautada por gritinhos de surpresa porque o rio mudara de leito, desta vez mais encostado às rochas, no ano seguinte atravessando o areal proporcionando verdadeira aventura de travessia, quais exploradores inexperientes. Tantas foram as vezes que não contando com a subida rápida da maré ficávamos todos presos do lado de lá, e tínhamos de aguardar horas seguidas que o nível da água nos permitisse, com as trouxas à cabeça, iniciar a aventura de passar para o lado de cá.
As noites em fogueiras na areia, conversa de jovens animada, onde ainda não se bebia cerveja e os namoricos se queriam sem compromissos, próprios da estação. A caminhada até à vila ao fim do dia, calcorreando três penosos quilómetros, mochilas às costas vazias que no regresso traziam um peso desmesurado para a nossa pouca idade, cumpridas as listas de compras que as mães nos entregavam.
Eram férias, imensas, um mês inteiro à beira mar, com direito a ver tudo o que havia para ver, explorar, por vezes em risco, as enormes rochas que saem do mar, tomar banho nas piscinas naturais entre escarpas, joelhos arranhados e conchas espetadas nos pés, consequências próprias de quem invade, sem licença, a Natureza.
Tempo para fazer amizades, que passam de um ano para o outro, daquelas que não desesperam na espera tal a certeza do reencontro. Até para o ano! Até para o Ano!
Este ano, tantos que passaram sobre os tantos que lá vivi, decidi lá levar a princesa. Cinco merecidos dias de férias, num desligar necessário entre o fim das aulas e o início das actividades no ATL de Verão. Pausa necessária para acalmar.
Fomos imediatamente adoptadas pela dona da Hospedaria, a simpática Dona Maria que nos preparava um pequeno-almoço como se tropa fossemos e ainda arrumava tudo numa trouxa para levarmos para a praia entre risos e queixumes do nosso pouco apetite. “Cuidado com o rio, meus amores!” era a recomendação diária, de quem sabe o quão traiçoeiro pode ser um caudal de água feito de enchente marítima. Rio que nos fundões já recebeu alguns incautos que, independentemente de saberem nadar, não têm nos braços a força de uma corrente teimosa e imparável. Atravessámos o areal como antigamente, tomámos banhos de rio alternados com o gelo daquele Atlântico que ali é puro e duro, subimos as rochas e procurámos os pequenos caranguejos que fogem aos nossos pés e os camarões transparentes que se aproximam da beira sem medo da sombra destas duas desconhecidas.
Encontrei muita gente conhecida, fruto de uma partilha distante, revivi memórias e pedaços da minha história que ali ficou também um pouco.
Vim de alma lavada deste passeio ao passado.
Sempre úteis estes passeios ao passado, quando o futuro que achávamos iríamos viver de repente .. desaparece.
Temos de voltar Mummy, murmurava a princesa na despedida.
Temos, certamente de voltar.

sexta-feira, junho 27, 2008


Tocaram à campainha com tal insistência que me assustei.

Eram quase três da madrugada, lia ainda sob a frágil luz do candeeiro de pé alto, olhei à volta como se de um sonho acordasse, coração a bater forte num susto difícil de conter. Levantei-me devagar e encaminhei-me para a porta.

Novo toque insistente de urgência feito, como que um pedido de socorro. Estranho, pensei. E espreitei. Lá fora, em trajes indescritíveis e sobre o tapete de um Welcome brilhante com que brindo os visitantes, jazia o meu pequeno diário. Na pressa a porta bateu na parede tal a força com que a abri, levantei-o devagar e ternamente do chão, olhos marejados e coração pequenino. As folhas quase todas de cantos rasgados e puídos. A capa, outrora em tons amarelados e castanhos, de uma cor indecifrável. Grossas gotas de chuva ou de lágrimas haviam esborratado a maioria dos textos, ilegíveis. Respirava devagar e em esforço e tentou uma piscadela de olho à laia de desculpa.
Deixei-o a descansar sobre a mesa da sala onde tantas vezes descansou a ponto de competir no seu espaço com os livros espalhados e os cadernos da princesa, sem um som.

Na cozinha, chaleira ao lume, preparei-lhe a chávena de chá. Tinha-lha guardado na esperança .. expectativa que regressasse.
Bebeu-a a fumegar, de um só trago, como se há muito nada lhe entrasse no estômago e pediu-me, por caridade, uma torrada. Preparei-lha, sem manteiga, levemente alourada, como sei que gosta ao mesmo tempo que estupidamente me vinha à lembrança uma das letras de Gal Costa que sei de cor (…) “ Me pediu ainda zonzo um copo d’água com bicarbonato Meu pedaço estava ruim de fato Pois caiu da cama e não tirou nem o sapato”. Devorou-a em três tempos fazendo menção de se sentar direito e começar a falar .. Calei-o com um shhhh .. a princesa está a dormir e já é tarde. Descansa, disse-lhe ainda, antes de me retirar, apagando a luz ténue do pequeno candeeiro de pé alto que lhe torcia as feições encovadas fazendo-o parecer assustador. Coisa que nunca foi.
Ainda lhe ouvi os suspiros e senti-o chorar.

Quem sabe pela última vez, agora que está de volta, de onde nunca deveria ter saído.
Sei que amanhã não lhe vou perguntar que se passou, nem por onde andou. Há coisas que mais vale não sabermos, já que nelas não participámos. Tenho a leve suspeita de que alguém o forçou a voltar. Alguém preocupado com a sua autora. Resta-me apurar somente a razão do seu regresso.
Se for por algo parecido com pena de mim, vai direitinho para a reciclagem.

quinta-feira, junho 26, 2008

Dusting


Escrever a história é a forma de nos livrarmos de um passado infeliz", afirmou Irene Pimentel, na entrega do Prémio Pessoa 2007, recebido do Presidente da República, no Museu Militar, em Lisboa.


Então, pensei ao longo destes tempos menos bons, se escrever a história é a forma de nos livrarmos de um passado infeliz .. e se de infelicidade e pura amargura foi feita a minha retirada destas lides, porque não exorcizar?


Porque não escrever não sobre o que realmente aconteceu mas sim sobre como faço para tudo tentar esquecer .. e seguir em frente. Como se necessária fosse uma limpeza de .. pó! É isso mesmo, uma limpeza de pó, daquelas profundas com direito a sofás arrastados pelo chão e quadros a sair das paredes. Porque não pensei nisto antes? .. daí até à inspiração do título deste novo blog, nesta nova fase, que espero curta, foi um passo. Dos pequenos. Afinal há ainda neurónios a funcionar neste pobre cérebro. Quem diria?


Quem sabe não é forma ideal para afastar de vez a infelicidade que me caiu em cima .. logo eu que advogo que a minha felicidade está na minha mão, nas minhas escolhas, nos caminhos que eu sigo porque quero.
Quem sabe ..
Vou experimentar.